Quais os impactos do excesso de burocracia nas ideias inovadoras?

Afinal, o que é uma ideia? No dicionário Aurélio, a definição do verbete é representação mental de coisa concreta ou abstrata, também pode ser um projeto, um plano, uma opinião, um conceito ou, até, um pensamento. E quando pensamos em ideia inovadoras, como podemos explicar esse conceito? Este texto, publicado pelo portal da revista Exame, mostrou que uma ideia inovadora muda a vida das pessoas para melhor, valoriza as mentalidades que foram impactadas com a empresa ou organização e cria um ciclo virtuoso de valor. E você deve estar pensando: com tantos pontos positivos, por que esses insights custam tanto a sair do papel?

No nosso dia a dia, temos contato com várias ideias inovadoras, projetos e práticas. Em alguns casos tentamos iluminá-las para que saiam do papel, na expectativa que sejam replicadas em todos os três poderes da Administração Pública. No entanto, da mesma forma que nos deparamos com essas ideias em nossa rotina, também encontramos várias barreiras que impedem que elas sejam colocadas em prática, como por exemplo, burocracia, falta de recurso, capital intelectual insuficiente, entre outros. Além desses três aspectos que, de fato, impõem barreiras em alguns projetos inovadores, existe outro ponto que é pouco explorado pelos especialistas em inovação e que será explicado ao longo do texto.

O viés do “não foi desenvolvido internamente”

A demora em tirar as ideias inovadoras e valiosas do papel em algumas instituições é uma prática inexplicável. E esse costume não é atribuído a nenhum governo específico ou esfera pública: acontece nos vários órgãos públicos dos três poderes. A inovação não acontece simplesmente por não ter sido desenvolvida internamente, nada mais.

Vale ressaltar, no entanto, que estamos partindo do princípio de que a tecnologia e o trabalho estão disponíveis e acessíveis. Além disso, em nossa história não se levou em consideração desvios de condutas, como a corrupção ou o favorecimento de contratos, que impedem que ideias inovadoras sejam colocadas em prática.

Além disso, para que você entenda o contexto da história, é importante explicar o conceito de viés cognitivo, que nada mais é do que a tendência do homem de praticar alguns erros sistemáticos e decisões irracionais em circunstâncias baseadas em fatores cognitivos. Confira abaixo o nosso exemplo de interação.

Um novo sistema de gestão

– Olá Sr. secretário, prefeito, diretor. O senhor conhece essa ferramenta que permite que a população ajude na gestão de sua cidade?

– Essa ferramenta específica não, mas já ouvi falar de soluções similares.

– A solução é bem simples de ser utilizada e a população do seu município vai gostar de saber que o senhor aderiu à ferramenta.

– Que ótimo que a plataforma é de fácil utilização! (é justamente neste momento que começa o viés) Vou agendar uma reunião com os responsáveis e criar um departamento para desenvolver esse projeto (mas ele já está pronto!).

– Mas senhor, na verdade, o projeto já está pronto. É preciso apenas assiná-lo.

– Mas as coisas não funcionam desse jeito. Precisamos personalizá-lo, dar a cara da instituição para esse projeto. Vamos definir uma equipe e ela vai trabalhar em algo semelhante, só que a nossa plataforma vai permitir que todos os moradores do município participem da gestão da cidade.

– Mas foi isso que eu disse no começo desta conversa. Já temos isso pronto para a sua organização. Várias outras instituições já estão fazendo desse jeito que estou lhe falando.

– Não, aqui é um pouco diferente. Obrigado pela sua atenção e parabéns pelo seu trabalho. Qualquer novidade entraremos em contato. Mas quando desenvolvermos nossa plataforma vocês topam ser parceiros?

Ideias inovadoras? Só se forem minhas

O viés do “não foi desenvolvido aqui” pertence a cada pessoa, mas acaba desprestigiando os órgãos públicos. Uma forma de entender esse cenário, as práticas e os processos envolvidos nele é por meio do acompanhamento das siglas nessas instituições. O que isso significa? Simples. Elas querem a sensação do conhecimento exclusivo, ou seja, uma linguagem única e que blinda a entrada de outras ideias inovadoras no círculo onde estão inseridas.

Olhe hoje mesmo para a organização que você trabalha. Quantos desses setores e siglas poderiam estar trabalhando juntos e permitindo uma melhor gestão do conhecimento e incentivo às práticas de inovação? A busca da solução, na maioria dos casos, é pela autoria da ideia e não pela quantidade de problemas que ela solucionaria.

A solução é compartilhar

Na época em que poucas pessoas tinham acesso à informação e ao conhecimento até fazia sentido viver em círculos fechados e buscar pela invenção da roda. Hoje, trabalhar dessa forma é prejudicial. Um exemplo disso é o debate sobre as patentes médicas. O quadro se agrava quando falamos de governo, já que, somos nós, os cidadãos, que financiamos os gestores que buscam pela reinvenção da roda. Afinal, todo mundo quer ser o pai da criança bonita, todo mundo quer ser o dono das ideias inovadoras.

No mundo corporativo esse quadro é um pouco diferente: os empresários estão começando a abrir suas patentes. O objetivo é tirar as ideias inovadoras do papel e, assim, estimular a inovação. O compartilhamento dessas informações acelera o processo de criação e aumenta a chance de alcançar soluções novas e melhores. Vale lembrar ainda que alguns órgãos públicos costumam convidar outras instituições para conhecer seus projetos e, ao compartilhar essas informações, estão melhorando a gestão do conhecimento. Outro ponto a ser destacado é que são justamente essas instituições que são vistas como inovadoras. Então, vamos pensar fora da caixa?
Autor: A WeGov é um Espaço de Aprendizado em Governo. Mostramos exemplos reais e práticos (oficinas), apresentamos outros servidores que já realizaram algo e promovemos a troca de experiência entre eles (eventos). Organizamos a rede, curamos o conteúdo, promovemos e realizamos oficinas e eventos que proporcionam o compartilhamento de informações e de projetos inovadores, que possam ser replicados entre os agentes públicos.

 

Publicado originalmente em e-Gestão Pública.