Como alcançar uma educação pública de qualidade

Para que o País realmente tenha uma educação de qualidade, é preciso implementar uma política pública que envolva todo o ecossistema educacional

 
A necessidade de melhorar a educação brasileira é um consenso em toda a sociedade. Da mídia aos políticos, passando por educadores, empresas, pais e alunos, todos dirão que um bom sistema educacional é essencial para o desenvolvimento do País e que ainda temos um longo percurso até alcançar esse objetivo. A grande questão é: qual o caminho? Quais os passos para, de fato, dar um salto de qualidade na educação brasileira?

A lei da reforma do ensino médio, sancionada há alguns dias pelo presidente Michel Temer, é uma iniciativa criada com essa intenção. Um de seus méritos é ter trazido novamente à tona o debate sobre o ensino, mas o aperfeiçoamento da educação requer um olhar mais amplo.

Política pública

Para que o País realmente tenha uma educação de qualidade, é preciso implementar uma política pública que envolva todo o ecossistema educacional, com a participação conjunta de líderes políticos, gestores escolares, professores, pais, alunos, empresas e a própria comunidade do entorno das escolas.

O primeiro passo, para avançarmos neste sentido, é contar com diretrizes educacionais claras, guiadas por um planejamento estratégico com metas para curto, médio e longo prazos, além de promover a avaliação periódica de resultados. Paralelamente, é preciso consolidar uma rede de relacionamentos que, por meio da colaboração, descubra novos caminhos para a educação. Isso significa envolver nessa teia todos os stakeholders da educação.

Aos secretários de educação, por exemplo, cabe o papel de articuladores desse processo. Além de terem a capacidade de analisar resultados de avaliações externas e das próprias escolas, eles precisam promover o diálogo democrático com a sociedade e viabilizar a execução financeira, alinhada ao planejamento estratégico pré-definido.

Na escola, por sua vez, é necessário haver gestores competentes. Não podemos mais ter diretores indicados por motivações políticas – eles devem ser concursados, experientes e tecnicamente qualificados para cargos de liderança. Já os professores precisam ser bem formados, motivados e preparados para a realidade da Educação do século XXI, que tem a revisão dos tempos e espaços e o protagonismo de seus estudantes como alguns de seus alicerces.

É importante destacar também a participação da iniciativa privada. O desenvolvimento econômico e social do Brasil passa, obrigatoriamente, por mão de obra qualificada capaz de atender às demandas dos mais variados setores. E o empresariado local, que precisa de profissionais com boa formação, pode colaborar com a educação, abrindo a porta do seu estabelecimento para que jovens possam praticar e entender muitos dos conceitos trabalhados no dia a dia escolar.

Esses são apenas alguns dos fatores fundamentais que devem ser trabalhados para que o Brasil tenha uma educação de primeiro nível. Nos itens abaixo, detalho melhor alguns aspectos que, do ponto de vista da complexidade de fatores envolvidos no processo educacional, devem ser contemplados em uma política pública consistente para o setor.

 
Confira os dez pontos necessários para o Brasil ter uma educação de qualidade:

 
1. Políticas públicas bem estruturadas que contemplem diretrizes claras para todas as dimensões do ensino e que envolvam a gestão pública educacional, planejamento estratégico com metas definidas e avaliação periódica de resultados;

2. Constituição de uma rede de relacionamentos que tenha um olhar sistêmico e promova ações articuladas e integradas entre os diferentes stakeholders;

3. Lideranças políticas responsáveis que sejam capazes de analisar resultados das avaliações externas e internas, promover o diálogo para tomada de decisões, fazer articulações com diferentes atores envolvidos no setor em busca de melhores resultados e promover execução financeira com responsabilidade;

4. Gestores escolares competentes, que saibam olhar atentamente para todas as dimensões relacionadas à rotina da gestão de uma escola e se relacionar bem com toda a comunidade, para assim, tomar as melhores decisões;

5. Educadores atualizados que, bem formados e motivados, consigam engajar os alunos em processos de aprendizagem significativa;

6. Pais e familiares envolvidos e que prezem por um ambiente familiar sadio, demonstrem interesse e acompanhem a vida das crianças e adolescentes sob sua responsabilidade;

7. Comunidade de entorno que reconheça a política educacional do município ou Estado como sendo de qualidade, participe e apoie as ações estratégicas;

8. Empresariado local articulado que invista em educação e abra suas portas para que os jovens desenvolvam as competências e as habilidades necessárias ao mercado, seja do ponto de vista comportamental ou do aprendizado técnico;

9. Relacionamento em rede entre escolas, centros de pesquisa, professores e alunos, o que proporciona o intercâmbio de experiências e o aprendizado em colaboração;

10. Comprometimento do próprio aluno, que vê sentido no seu processo de formação, se sente seguro, motivado e apto a aprender.

 
Como se nota, esses pontos englobam todos os envolvidos no processo educacional. Se implementados a partir de um amplo projeto de transformação do ensino, com uma visão holística e voltada a resultados, poderemos finalmente dar o salto de qualidade na educação que o Brasil tanto deseja e necessita. O que estamos esperando?

 

Autora: Luciana Allan – Diretora do Instituto Crescer

 

 
Postado originalmente no Portal Revista Exame

Imagem: divulgação